Disfonias

Volume 2

Introdução

A laringe apresenta na espécie humana as mesmas funções essenciais para a vida encontradas nas espécies superiores, a saber: condução do ar, proteção das vias aéreas inferiores e suporte para o esforço. A estas funções se associa a emissão de sons, que permite basicamente a comunicação inata entre os membros da espécie. O gato tem o miado, o cachorro o latido, o cavalo o relincho etc., com variações instintivas importantes para a sobrevivência.

Na espécie humana, esta função sonora adquire caraterísticas próprias em consonância com o desenvolvimento da cognição, e passa a ser denominada voz. Assim, a voz é a produção sonora que resulta da associação dos sons gerados pelas vibrações das pregas vocais e pelas constrições das cavidades supraglóticas à passagem do fluxo de ar expiratório, modificadas pelos efeitos de ressonância, constituindo o suporte acústico para a comunicação social.

A voz depende de quatro dimensões, que lhe dão as características:

  • Biológica
  • Psicológica
  • Sócio-educacionais e
  • Axiológica – esta relacionada com os valores da vida

Se o produto vocal destas dimensões for adequado, temos a eufonia, que pode ser definida como associação harmoniosa entre os elementos envolvidos na emissão vocal que resulta em sons agradáveis ao ouvido, emitidos sem dificuldades ou desconforto para o falante e que se modifica de acordo com a situação e o contexto da comunicação.

Pode ocorrer que a situação de eufonia não se sustente, o que gerará o que se denomina disfonia, que pode ser definida como toda e qualquer dificuldade na emissão vocal, que impeça a produção natural e harmoniosa da voz. Desta forma, a disfonia não é um sintoma, ela é a perda da eufonia que pode se manifestar por diversos sintomas e sinais.

Existem situações que na dimensão biológica ocorrem variações, lesões ou disfunções que não afetam a emissão vocal, dentro de certos limites de uso da voz e, nestes casos, dizemos que a voz está adaptada, apesar da inadaptação orgânica ou funcional das estruturas. Esta adaptação pode deixar de existir se ocorrerem solicitações outras para o uso da voz.

Temos duas causas distintas que levam à disfonia: uma que resulta da ação do processo fonatório e outra que independe deste processo, mas se manifesta por ele. A disfonia que resulta da primeira é dita funcional, isto é, a função gera o dano, e a que resulta da segunda é dita orgânica, como sinônimo de sintomática, e indica a presença de uma doença. Na disfonia funcional, a ação do processo fonatório pode causar danos nas estruturas e, quando estes são detectados, dizemos que a disfonia é orgânico-funcional, ou seja, as lesões decorrem da ação traumática da função.